Parte 17 – São Paulo


Parte 17 – São Paulo
“E isso era irônico demais com o trajeto que seguia, São Paulo era grande, mas, todos sabem que segredos não ficam guardados por muito tempo”
            Quando enfim chegamos ao aeroporto de Cumbica já havia amanhecido e Rafael nos esperava, com o seu cabelo espetado e cara de ansioso. Assim que pegamos as nossas malas falamos com ele.
            -Pela primeira vez estou vendo o casal que deu certo devido ao meu jogo! De certa forma eu sou o responsável por isso, estou tão feliz!-ele disse nos abraçando de uma só vez como se fosse um tamanduá.
            -Hehe... – foi a única coisa que tentei ao menos dizer.
            -Maninho!- Soraya disse. E me fez lembrar que os dois tinham uma relação de irmãos virtualmente, e se ajudavam na medida do possível, igual ao episódio quando eu me afastei dela e ele escreveu que não iria deixar mais nenhum “falso cunhado” fazer mal á ela. Seria mais cômico, se não fosse tudo verdade. E agora a origem de todo o mal era ela, e os demais eram vítimas dessa história sanguinária.
            Ele nos guiou até o seu Ford Fusion prata, o carro era maravilhoso por fora, mas por dentro explicava o fato de Rafael ter pagado tão barato pelo carro.
            -Valeu a pena comprar esse carro, a aparência engana perfeitamente!- ele disse rindo enquanto tentava fazer o motor funcionar.
            -O que é isso?- indagou Soraya tirando uma calcinha vermelha de renda debaixo do banco do passageiro. -Você é um trav...
            -Que isso, mana!É da Mel!Quê isso achar que sou um travesti!- e deu um sorriso amarelo.
            -E a Sabry? Ela está ansiosa para te visitar, mas se souber que você está com a Mel! – eu o alertei.
            -Eu gosto da Sabry, na real eu a amo! Mas, a Mel é mais acessível, me entende?Está em São Paulo mesmo, pego e deixo na hora que posso!- ele se desculpou, ou ao menos tentou.
            -Você é o meu irmão virtual, mas eu não tolero que seja tão cafajeste ao ponto de brincar com os sentimentos da minha melhor amiga, ok? –Soraya disse em um tom de alerta, confesso que achei que o pescoço dele iria sangrar naquele momento.
            -Tudo bem! Eu converso com ela todo dia, e já sei que vocês estão fugindo do Cle e que a Sora virou... - ele não concluiu.
            -Nem me lembre disso! – ela o interrompeu.
            -Bom, na minha vizinhança tem muitos animais que desejo a morte deles, se quiser posso ir te indicando conforme sua fome chegar, para isso me avise antes, ok?-ele disse.
            Eles conversavam como se tudo fosse absolutamente comum, o fato de que ela era uma vampira e que os animais serviam de alimento. Achei o papo estranho e horrível. Eram sete da manhã e ainda enfrentávamos um trânsito caótico, quando o celular de Soraya começou a tocar. Com certeza a família Priesly já sabia da nossa fuga.
            -São eles, é o número da minha casa!O que eu faço?- ela me perguntou.
            -Atende de uma vez e explique o real motivo!- eu respondi.
            -O ar poluído daqui afetou os seus neurônios, ou o quê? Você não entendeu qual parte sobre fugir? – ela me fitou com os olhos ameaçadores de sempre.
            Ela pegou o celular, abriu o compartimento atrás onde fica bateria, retirou o chip, me entregou o aparelho, abriu a janela do Ford Fusion que estava emperrada por sinal e mesmo com metade do vidro aberto, atirou o chip no rio Tietê. Praticamente, um crime ambiental, se aquele rio não fosse tão poluído que um cisco a mais não alteraria aquele esgoto a céu aberto.
            -Pronto, resolvi! – ela disse limpando as mãos como se as tivesse sujado, atirando o chip pela janela.
            Apenas dei o meu sorriso quando não tenho palavras a dizer e cujo significado era “se é assim, assim está bem”. Rafa ligou o rádio que começou a tocar a música do Barão Vermelho, “Puro Êxtase”. Soraya começou a dançar alucinadamente que o banco traseiro estava pequeno para nós dois, minha cabeça foi parar no vidro.
            -Ela está suada e pronta para se derreter!Ela é puro êxtase!- ela repetia o refrão da música sem parar. – Se o galo cantou é que tá na hora de chegar, de tão alucinada já ta rindo á toa, quando olha para os lados a todos atordoa! A sua roupa montada parece divertir os olhos gulosos de quem quer me despir! Ela é puro êxtase!- faltava uma garrafa de champanhe nas mãos para completar a alucinação da minha amada. - Sou eu, essa música é minha!Como se fosse o Wend, cantando para mim!
            Uma coisa ela tinha em comum com a música, os olhos gulosos. Fiquei a admirando por mais que negasse, ela era ordinária e perfeita, uma mistura maravilhosa que formava a minha vampira, a mais deslumbrante de todos. Eu disse minha? Até quando seria minha?

Parte 16 – No Avião


Parte 16 – No Avião
       “E mais uma vez seu feitiço havia dado certo pelo menos o início, já que eu não esperava sossego nos próximos tempos.”
            Chegamos ao aeroporto e logo o nosso vôo foi anunciado. Fizemos o check-in e aguardamos. Logo, já estávamos sentados em duas poltronas confortáveis e vermelhas e o melhor sem a terceira pessoa ao lado. Sentei próximo da janela porque adorava visualizar a pista de decolagem ser substituída pelas nuvens e aos poucos tudo parecer tão pequeno. Mas, estava escuro demais para qualquer visualização, somente as luzes pareciam vaga-lumes no chão.
            Soraya abria o seu livro e ligava a luz de leitura, estava lendo Amanhecer de Stephenie Meyer, o último da saga Crepúsculo, ao que me parecia adequado para uma recém-vampira. Ficamos em silêncio durante a maior parte do percurso, enquanto ela lia, eu tentava dormir, o que era impossível já que os meus pensamentos estavam voltados no momento em que a família Priesly encontrasse o bilhete, se é que haveria um bilhete e que o conteúdo fosse aquele que Soraya havia me contado.
            Peguei uma revista disponível no banco e comecei a folheá-la, haviam entrevistas com personagens da Fórmula 1 , achei muito entediante e eu sempre acreditei que nessas corridas haviam trapaças e muito jogo sujo.Resolvi ler os classificados no verso da entrevista era algo como um “correio sentimental”, pessoas expondo suas características,gostos e endereços em busca de uma “alma gêmea”.
            -Não acredito que com tanta tecnologia isso ainda existe! – eu disse, amassando a revista.
            -Ai, você me assustou, seu estrupício! O que te chateou na revista? Deixe-me ver, está com raiva do Bruno Senna? Ele não tem talento como o tio dele, mas... - ela disse deslizando os dedos pelas páginas da revista.
            -Não é isso! É isso! – eu disse abrindo na página onde estava o correio sentimental.
            -Parece que esse povo está atrasado, pelo menos eles têm e-mails! Mas, o que tem nisso de tão ruim, Wend?- ela perguntou olhando para a minha cara com espanto.
            -Nada em especial, só me fez lembrar de quando eu te conheci!-respondi.
            -Que eu saiba não nos encontramos em um site de relacionamento, de namoro, foi o acaso do jogo, acho que você está perturbado! – ela disse colocando a mão gélida na minha testa quente.
            -Ai, eu não estou perturbado! Só me arrependi de ter vindo com você, uma zumbi, não sei! Um cadáver que fala, anda e... Eu sou um panaca! – eu disse abaixando a cabeça.
            -Você não é um panaca, talvez tenha uns 5% de panaca, mas a revista não tem culpa das suas loucuras e surtos, e outra, essa loucura valerá a pena, você está com quem realmente ama!
            -Correndo risco de vida, tem mais algum ponto positivo de agüentar uma “mortinha” me mandar o que e não fazer?-perguntei com raiva.
            -Grita para todo mundo no avião ouvir que eu sou uma vampira, quer um megafone?Achei que você gostasse tanto de Pushing Daisies e amores impossíveis que decidi fazer essa surpresinha para você, eu sou a sua Chuck, meu bem!
            -A Chuck não é tão ruim quanto você, e eu precisaria de um labrador marrom e ter uma “toca da torta”!
            -E quem te disse que você é o meu confeiteiro? Você é mais do que um ressucitador, mas se quiser me ressucitar...
            -Devo ligar para a polícia, para a funerária ou o quê?
            -Me beije!-ela me pediu, com os olhos cintilantes.
            -Ok, te beijar e ter uma hipotermia, ter um ataque no avião e cairmos na ilha de Lost! Onde você confundirá os nossos caminhos e comerá todos da ilha!
             -Ás vezes, eu acho que a sua mentalidade é tão fértil, que você deveria começar a escrever uma história sobre a nossa relação desde o início até o meu estágio atual!Você vive reclamando, talvez o melhor fosse se eu tivesse deixado você em Curitiba com a minha irmã, daí o Cle...
            -Não continue! Você não ficará repetindo o nome desse “filho do esperto” enquanto eu estiver vivo e por perto! – eu disse.
            -Quanta rima, que tal virar um trovador?Eu tenho uma musiquinha! “Hoje as pessoas vão morrer, hoje as pessoas vão matar, espírito fatal e a psicose da morte estão no ar, o mundo poderia acabar, já agora neste momento, por que só eu estou sabendo e eu já fiz tudo que já tinha pra fazer hoje”!
            -Uau! Bela música, ainda bem que a sua voz também não ficou monstruosa, como as demais partes!
            -Acho melhor você descansar e se conscientizar de que o elo que nos une está cada vez mais forte, e eu já não posso ficar sem você e vice-versa! Você é meu, e eu serei tua assim ninguém mais poderá nos separar nem a distância de um amor virtual nem o coração ferido de um vampiro malvado! Quantas vezes eu terei que demonstrar que eu... Eu...
            -Que você...?
            -Que eu estou te... Te protegendo de todo mal que ronda a sua vida!Sei que a culpa é minha, mas eu só quero ter você por perto!
            -Minha amada cadáver, ou seria a minha noiva cadáver? Tim Burton adoraria te conhecer! Você está falando tão bonito que eu achei que agora iria se declarar para mim!
            -Eu? Me declarar para um ser tão estúpido e chato como você? Imagina só, eu me derretendo por um humano orgulhoso que não assume que está feliz ao meu lado!
            -Você não se derrete porque é mais gelada do que um iceberg, mas agora com o aquecimento global pode ser que o seu gelo derreta!Eu não vou mais discutir, porque detesto barracos em lugares públicos!
            Como ela podia ser tão dissimulada e orgulhosa em dizer aquilo depois de tudo? Como se eu estivesse ali por espontânea vontade ao invés do perigo! QUEM disse que ela era o melhor para mim e que este era o melhor caminho? Poderia eu retornar e colocar um ponto final nesta história de ser o companheiro das aventuras e desventuras de uma recém-vampira?
           

Parte 15- Seqüestro



Parte 15- Seqüestro
 “A minha megera indomada me levava numa direção absurda, eu corria risco de vida, mas isso era tão importante?”
            Soraya abriu pausadamente a porta da sala para que eu pudesse levar as seis malas, uma quantidade exagerada com o guarda-roupa todo dela. Assim que o portão abriu, Sabry saltou do carro preto dando sorrisinhos de alegria.
            -Vocês sabem que sempre foram o meu trauma favorito no jogo! –disse ela unindo as mãos.
            -Obrigado, mas você pode abrir o porta-malas, por favor? –perguntei enquanto me equilibrava com as malas.
            -Só um minuto Wend!Deixe-me terminar de falar, não sabem o quanto eu estou emocionada com isso, vocês são tão perfeitos! –disse a garota apertando a minha bochecha.
            -Sabry, será que dá para abrir esse negócio logo?Ou está esperando que o Wend derrube todas essas malas e faça um barulho que desperte toda a minha vizinhança? – disse Soraya trocando a expressão de riso por raiva.
            -Ai que saco!No carro eu falarei mais!-ela disse com raiva enquanto o porta-malas espaçoso se abria.
            Após passos silenciosos e uma batida leve para que o portão trancasse, entramos no carro e Sabry saiu pilotando em alta velocidade como se estivesse na fórmula alguma coisa.
            -O que escreveu no bilhete? –perguntei á Soraya.
            -Eu escrevi “queridos, tive que tomar uma medida de emergência, levei o Wend comigo! Ale não me mate, ele nem te amava mesmo! Fiz o que será melhor para todos, quando a situação ficar mais estável prometo contar-lhes a verdade, beijos gelados da ETERNA Soso”!
            -Sua irmã desejará que eu morra e seus pais pensarão que isso é um seqüestro!Mas, não identifico ainda quem seqüestrou quem!- eu disse.
            -Um amor bandido vampírico, adoro filmes assim! –disse Sabry se remexendo em seu banco de couro rosa.
            -Não é filme, é vida real! – reclamou Soraya.       
            -Chegamos amores! – disse Sabry dando gritinhos entre as palavras de alegria. -Aqui estão as passagens e o Rafa disse que aguardará vocês no aeroporto de Cumbica, bem você tem o celular dele né, Soso?
            -Claro, muito obrigada, minha melhor amiga da vida virtual e real!Tudo está funcionando conforme o planejado! –disse Soso, abraçando a amiga entre os bancos do carro.
            -Você sabe que eu sou eficiente!Mas, antes de saírem eu quero tirar uma foto com vocês e outra de vocês! – disse Sabry, retirando da bolsa da pantera cor-de-rosa, uma câmera rosa para variar um pouco.
            Ela passou para o banco traseiro, nos abraçou e a máquina programada tirou um belo retrato apesar das nossas caras sonolentas.
            -Calma, agora eu quero uma de vocês se beijando! – ela pediu batendo a cabeça no teto do carro.
            -Isso não é possível!Não estamos juntos! – eu disse.
            -Oficialmente já estamos, basta você querer! – respondeu Soraya.
            Olhei para aqueles olhos verdes-escuros e, já que me envolvi em uma louca história e a minha relação com Alessandra havia saído pela porta, não hesitei. Sabry tirou uma foto que mais parecia com aquelas fotos de recém-casados.
            -Perfeita!Divirtam-se em São Paulo, meus amores! – falou Sabry em tom maternal, enquanto eu pegava nossas malas.
            -Se minha irmã aparecer na sua casa ou entrar em contato pelo Orkut ou algo do tipo, diga que não sabe de nada, e se o Cle aparecer... -recomendou Soraya.
            -Diga que a Soraya me seqüestrou para me matar, você não deve dar satisfações para aquele vampiro imbecil, o “filho do esperto”! – eu a interrompi.
            -Pode deixar, pretendo ir a São Paulo em breve! – disse Sabry.

Parte 14 – A Fuga


            Parte 14 – A Fuga

“E se eu contasse tudo? Poderia estragar a fuga, mas o que  faríamos com uma vampira á solta? O melhor a se fazer era...”
            -Sua irmã está com problemas, acho!Mas, não quis me contar!
            -Estranho, porque você está com cara de cúmplice!Me entende? – Ela disse tocando no meu rosto.
            -Cúmplice? Só se for de um resgate! – disse sorrindo, tentando mais uma vez dispersar o assunto abordado.
            -Tá bom!Agora me beije como se fosse a última vez!
            Será que ela descobriu que esta era a última vez?Podia ler a minha mente? Eu deixava tudo tão evidente?Não poderia dar sinais da minha fuga.
            -Como assim? – perguntei, franzindo a testa.
            -Nunca ouviu a música “Bésame mucho”?
            -Ah, claro que sim!- só depois desse alívio, a beijei.
            Quando voltamos para a residência dos Priesly já era tarde, e para a minha sorte e de Soraya, todos foram dormir “cedo” naquele dia. Após me despedir de Ale, me tranquei no quarto como se fosse mais uma noite de sono, até ouvir três leves batidas na porta.
            -Já vai, calma!- eu disse com raiva. –Você?
            -Quem achou que fosse? A bruxa de Blair? Ou a minha irmã, a rockeira louca? Já arrumou tudo?
            -Sim, dona vampira, dona do meu sangue!
            -Cala a boca Wend!Acho melhor você sair por aí gritando e revelando a minha condição secreta!
            -Se eu gritar você me morderá? –olhei sugestivamente.
            -Não te morderei, mas posso te matar que é mais eficiente!
            -Quer saber? Eu não fugir com você, se o “filho do esperto” quiser me matar eu denuncio para o centro de aberrações da natureza antes de qualquer coisa ou para o zoonoses!
            -Primeiro isso não existe e ninguém vai acreditar em você! No mínimo você será internado em um hospício ou uma clínica de recuperação mental!
            -E você irá comigo já que o seu pai pretende te internar lá também!
            -Você já arrumou as coisas?
            -Já, vampira louca! Mas, ainda não sei porque entrei nesta fria literalmente!
            -Porque você ama, ainda!
            -Infelizmente tenho que admitir algo que não é perigoso em dizer, já que vou ficar com a “imagem suja” com a sua irmã!
            -Eu deixarei um bilhete á eles!
            -Vai escrever o quê? Seqüestrei o seu namorado, se quiser pague a recompensa de...
            -Não! Mas, pedirei desculpas por mim e por você!
            -Que bom! Acho que a vampira má ainda tem um bom coração, mesmo que seja de papelão!
            -Se for para você me tratar com essa ironia e sarcasmo é melhor que eu mate você e fuja sozinha!
            -Vá em frente! Me mate de uma vez, tire a minha alma, me deixe desencarnado, mas eu duvido que conseguirá se esquecer de mim, eu sou inesquecível, o seu presente do natal!
            -Você é definitivamente o meu karma!
            -Sabe que eu posso lhe dizer o mesmo!Por que estou no Paraná? Ah, porque uma guria virou vampira e maltrata os familiares, e o que eu tenho a ver com isso?Ah, eu namorei virtualmente por um longo tempo, com essa louca recém-transformada!
            -E agora está com a minha irmã!
            -Coisa que aconteceria se eu não te conhecesse naquele RPG!
            -Meu celular está tocando!
            -Atende, pode ser algum dos Volturi dizendo que sua cabeça será cortada!
            -Não me diga o que fazer ou não!Alô! Você já está aqui? Vamos sair! Wend pegue suas malas e as minhas também, enquanto eu abro aquela porta barulhenta com delicadeza!
            -Você levará quatro malas?-eu perguntei, não acreditando no peso que segurava.

Parte 13- Perguntas


Parte 13- Perguntas
       “Já não dava mais para mentir e ela era a minha atriz favorita...”
            O dia estava normal como sempre, mas eu já não conseguia abraçar e beijar Alessandra com a mesma intensidade e carinho de antes. Havia uma “barreira” que me impedia.
            Ninguém notou a minha mudança comportamental, e Soraya também agia normalmente, me ignorando para não demonstrar que nossa relação havia mudado. Na sala, Ale me perguntou:
            -Hoje pela manhã, o que ela queria com você? Ficaram quase uma hora trancados, fiquei preocupada!
            Pensei na resposta mais rápida e que não demonstrasse que eu estava mentindo.
            -Ela achou que iria morrer de hipotermia, e então resolveu me pedir desculpas e esclarecemos a nossa relação mal resolvida do passado!-disse com um sorriso amarelo.
            -Estranho, se tudo está bem agora, por que ela te ignora?
            Eu sabia que Ale era tão esperta quanto a irmã mais velha, e que o melhor a se fazer era fugir já que não agüentaríamos tantas perguntas.
            -Você conhece sua irmã melhor do que eu!Sabe o quanto essa garota é orgulhosa, jamais dará o braço a torcer!
            -Isso é verdade, ela é uma peste mesmo!Mais uma vez não almoçou só para nos deixar com raiva!Mamãe não que dizer, mas ela acha que Soraya parece um daqueles mutantes da TV!
            -Mutante?Bobagem!Acho que ela é pior do que um mutante, sem dúvida!
            -Ás vezes acho que ela é um alienígena, afinal herdou os olhos claros do nosso pai, e ele também parece um E.T quando falar ao celular aquela linguagem de câmbio!
            -Ela pode comer escondido!
            -Tudo bem que ela queira comer fora e tal, mas, não precisa fazer desfeita da comida da mamãe que é tão gostosa!
            -Realmente, dona Miranda é uma chefe de cozinha e tanto!Mas, a cabeça da sua irmã não pode ser controlada!- disse para tentar mudar o assunto, antes que a minha “boca grande” revelasse algo.
            -Ainda bem que herdei isso dela!Você não passará fome, agora a Soraya só cozinha quando quer, e na maioria das vezes faz macarrão instantâneo e pipoca, quer dizer cozinhava porque agora parece uma pata choca!
            Assistimos a uns filmes durante a tarde inteira. Soraya permaneceu no quarto arrumando as malas, disse para nós que precisava relaxar após a sua crise de hipotermia. Miranda acreditava que tanto nervoso era a proximidade do resultado do vestibular.
            Após o jantar, Ale me convidou para dar uma volta no parque. Aceitei, pois seria o meu último encontro com ela, mas sabia que na madrugada a minha vida tomaria um rumo ainda mais diferente.
            Aproveitei aquela noite para conhecer o máximo de Curitiba, a Praça Osório e outros pontos. Na frente de uma fonte, Ale segurou as minhas mãos, olhou nos meus olhos e disse:
            -Você parece estranho desde que saiu do quarto dela, está acontecendo algo que te perturba e quer me contar?
            -Nada me perturba!-respondi com aspereza.
            -Acredite, apesar da virtualidade, eu te conheço muito bem e sei que algo no seu rosto te apavora!
            Arrumei os meus óculos e não respondi.
            -O que você quer me contar?-ela insistiu.
            -Te contar?
            -É sobre a Soraya? O que você sabe? –ela apertou com muita força os meus pulsos.

Parte 12- Planejamento


Parte 12- Planejamento
“Seu plano era perfeito assim como a vivacidade de seus olhos”
            -E o que vamos fazer?-perguntei.
            -Sabry me disse que já conversou com o Rafael e que ele pode nos abrigar lá em São Paulo!
            -Que ótimo!Vocês resolvem tão fácil quando querem!Mas, e a sua irmã e os seus pais?
            -Alessandra é nova, vai superar o fato de que eu fugi com o namorado dela, não que seja fácil em lidar com a situação, mas não pode interferir!Os meus pais também, segundo a legislação eu já sou adulta, falta pouco para os meus dezenove anos!
            -As coisas não são tão fáceis para os humanos quanto são para vocês, vampiros! – a última palavra soou com desdém, e eu dei uma risada sarcástica.
            -O fato é que eu preciso de você, preciso que fuja comigo!
            -Agora você precisa de mim, mas na hora de se encontrar com aquele imbecil do vampiro?Foi sozinha sem se importar com quer que fosse!Sinto muito!
            A música que tocava no rádio era “Insensatez” da Fernanda Takai.
            -Eu te peço por mim, pelos demais também!Eu sou um perigo para todos, será possível entender?
            -E para mim também representa perigo!Eu não quero deixar o meu pescoço na sua reta!
            -Por acaso em algum momento eu pedi o seu sangue? Por enquanto estou bem nutrida e não preciso dele!
            -Nutrida? Você comeu quantas pessoas?
            -Eu não como pessoas, idiota!Apenas animais, o sangue de um gato, por exemplo, é suficiente para três dias!E o sorvete do aeroporto...
            -Que nojo, quanta maldade!Ainda bem que você não tem animal de estimação!Eu sabia que aquele sorvete não era groselha, era tipo A ou tipo B? Positivo ou negativo?
            -Era AB!Um dia você entenderá a minha condição vil e medíocre!
            -Prefiro não entender!
            -Posso te beijar? –Ela me pediu com um brilho no olhar.
            -Depende se não quiser absorver as minhas artérias com um beijo!
            -Seu bobo! Vai continuar assim até quando?
            -Humano? Até a morte, e bobo até cansar!Você sabe muito bem que ás vezes eu me faço de bobo, para não deixar as situações piores do que já estão!
            Nos beijamos e eu já não  podia condenar as atitudes frias dela, estava no mesmo caminho e até pior, já que não dava mais para manter o relacionamento com Alessandra.Não podia mais enganá-la de tal forma.Eu era mal a partir do momento em que rompi um compromisso em busca da felicidade.Seria um cúmplice ou um apaixonado?
            Era feliz com Ale, mas faltava aquela “pitada de pimenta” que só Soraya tinha. O nosso estranho jeito de amar, o platonismo, as cartas, as conversas aos finais de semana e o elemento fundamental, o melodrama. Saí do quarto de Soso decidido a terminar de uma vez com Ale, mas sua irmã me impediu.
            -Você está louco?Ela vai sofrer o suficiente com a nossa fuga, deixe tudo como está e o tempo se encaminhará de fazê-la entender que tudo foi para o bem dela e de todos!
            -Está bem, se acha que assim é melhor!
            -Hoje, para ser mais exata nesta madrugada vamos fugir ok? Deixe suas malas prontas, assim que todos dormirem eu ligarei para a Sabry e ela nos levará até o aeroporto!
            -Você já comprou e esquematizou tudo?
            -Claro meu bem, ou acha que daria tempo de você impedir e estragar tudo?Você virá comigo e juntos resolveremos tudo!Lembre-se que tu corres perigo tanto como eu!    

Parte 11 – Confissões


Parte 11 – Confissões
“Ela me falou tudo o que eu queria ouvir, mas eu não esperava que me envolvesse em uma louca história”.

   -Quer me dizer que ainda me ama? –perguntei já sabendo qual era a resposta.

            -Não é isso... Quer dizer não é só isso... Pelo visto você soube que eu estive com o Cle nesses tempos atrás!-ela me disse gaguejando.

            -Por favor, não me diga que o tal do Cleverson te engravidou!Aquele “filho do esperto”... O que tem a ver?-perguntei.

            -Ele me mentiu... No início disse que me amava...

            -Está fazendo tradução da música da Anahí?Isso não é válido!-enquanto eu falava, ela ligou o rádio e obviamente naquele cd era dos Cranberries e a música era “Will you Remember”.

            -Não!Sinta a minha pele, está congelada!-ela pegou as minhas mãos e colocou-as em seu rosto. Foi a impressão de estar tomando um choque. Sua pele era macia e aveludada, porém, parecia um freezer.

            -E qual é a relação da sua pele com o tal “filho do esperto”? –perguntei.

            -Quando eu o encontrei na praça naquela noite, ele parecia estranho, usava um sobretudo preto, aquela aera uma noite abafada e eu não entendi!

            -Pare de me enrolar, e me diga de uma vez a verdade que está me escondendo! –eu disse com raiva de tanta embromação.  

            -Eu sou... Eu estou... Sou uma vampira! –me confessou.

            Supostamente seria uma piada para qualquer um que ouvisse isso logo pela manhã. Na cama com uma vampira? Que coisa mais cinematográfica, vampiros brasileiros, a nova sensação do verão de quarenta graus.

            -Sei que essa onda de vampiros voltou com esse lance de “Crepúsculo”, mas chega a ser inacreditável, me desculpe! –Eu respondi em deboche.

            -Ele demorou muito tempo para marcar o nosso encontro... Porque ele não queria me ver...

            -Eu sempre soube que ele era um fraco, ou melhor, que se quer existia... Mas, ser um vampiro é demais para a minha imaginação fértil!

            -Lembra a história da garotinha Raquel que foi encontrada em uma mala na rodoviária aqui em Curitiba em 2008?

            -Claro, aquela história que está sem solução até hoje!Nós conversamos uma vez sobre isso até que eu mandei você se cuidar!-eu disse.

            -Foi ele quem a matou!

            -Meu Deus!Quem inventou os vampiros, certamente não foi Deus!Como funciona esse negócio de ser vampiro? –perguntei curioso.

            -No dia do nosso encontro, ele me modificou com uma mordida, fiquei em péssimo estado, tanto que apareci aqui em casa uma semana após aprender tudo. Aos poucos eu fui me transformando nesse monstro, primeiro veio a agressividade, depois a agilidade e agora parece que cheguei ao estágio final onde tudo fica evidente e translúcido pelos meus olhos e minha pele!

            Assustei-me com o que ela disse, e até me esquivei um pouco. Eu não tinha nenhum dente de alho, ou estaca de madeira, pelo menos não teria que usar uma bala de prata, já que ela não era uma “lobimulher”, se isso existisse.

            -Estou perdendo o controle das minhas ações, me aproximar de qualquer um é um tormento, por isso me tranco no quarto para estudar, o cheiro de sangue correndo nas veias de todos que me cercam, o calor da pele... Quase que eu te mordi ontem na festa!

            -E onde o pilantra do Cleverson está?Você sabe como ele se transformou em um?

            -Antes de entrar no RPG, ele investigou toda a minha vida, eu seria apenas mais uma vítima que ele conhecera pela internet!Mas, ele se apaixonou por mim e tivemos aquele namoro que apesar de sermos da mesma cidade nunca passou do campo virtual!Então, ele decidiu que ao invés de me matar, eu era merecedora de uma transformação!Eu não sei onde ele está!

            -E onde eu entro nessa sua história sobrenatural?

            -Ele está decidido a te matar, já descobriu que você está aqui em Curitiba... eu li no Twitter dele!

            -HAHA...Vampiros que “twittam”...viva a modernidade!-dei uma risada forçada, mas estava com um pouco de medo.Seria tudo verdade, ou não passava de uma “pegadinha”?


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Parte 17 – São Paulo


Parte 17 – São Paulo
“E isso era irônico demais com o trajeto que seguia, São Paulo era grande, mas, todos sabem que segredos não ficam guardados por muito tempo”
            Quando enfim chegamos ao aeroporto de Cumbica já havia amanhecido e Rafael nos esperava, com o seu cabelo espetado e cara de ansioso. Assim que pegamos as nossas malas falamos com ele.
            -Pela primeira vez estou vendo o casal que deu certo devido ao meu jogo! De certa forma eu sou o responsável por isso, estou tão feliz!-ele disse nos abraçando de uma só vez como se fosse um tamanduá.
            -Hehe... – foi a única coisa que tentei ao menos dizer.
            -Maninho!- Soraya disse. E me fez lembrar que os dois tinham uma relação de irmãos virtualmente, e se ajudavam na medida do possível, igual ao episódio quando eu me afastei dela e ele escreveu que não iria deixar mais nenhum “falso cunhado” fazer mal á ela. Seria mais cômico, se não fosse tudo verdade. E agora a origem de todo o mal era ela, e os demais eram vítimas dessa história sanguinária.
            Ele nos guiou até o seu Ford Fusion prata, o carro era maravilhoso por fora, mas por dentro explicava o fato de Rafael ter pagado tão barato pelo carro.
            -Valeu a pena comprar esse carro, a aparência engana perfeitamente!- ele disse rindo enquanto tentava fazer o motor funcionar.
            -O que é isso?- indagou Soraya tirando uma calcinha vermelha de renda debaixo do banco do passageiro. -Você é um trav...
            -Que isso, mana!É da Mel!Quê isso achar que sou um travesti!- e deu um sorriso amarelo.
            -E a Sabry? Ela está ansiosa para te visitar, mas se souber que você está com a Mel! – eu o alertei.
            -Eu gosto da Sabry, na real eu a amo! Mas, a Mel é mais acessível, me entende?Está em São Paulo mesmo, pego e deixo na hora que posso!- ele se desculpou, ou ao menos tentou.
            -Você é o meu irmão virtual, mas eu não tolero que seja tão cafajeste ao ponto de brincar com os sentimentos da minha melhor amiga, ok? –Soraya disse em um tom de alerta, confesso que achei que o pescoço dele iria sangrar naquele momento.
            -Tudo bem! Eu converso com ela todo dia, e já sei que vocês estão fugindo do Cle e que a Sora virou... - ele não concluiu.
            -Nem me lembre disso! – ela o interrompeu.
            -Bom, na minha vizinhança tem muitos animais que desejo a morte deles, se quiser posso ir te indicando conforme sua fome chegar, para isso me avise antes, ok?-ele disse.
            Eles conversavam como se tudo fosse absolutamente comum, o fato de que ela era uma vampira e que os animais serviam de alimento. Achei o papo estranho e horrível. Eram sete da manhã e ainda enfrentávamos um trânsito caótico, quando o celular de Soraya começou a tocar. Com certeza a família Priesly já sabia da nossa fuga.
            -São eles, é o número da minha casa!O que eu faço?- ela me perguntou.
            -Atende de uma vez e explique o real motivo!- eu respondi.
            -O ar poluído daqui afetou os seus neurônios, ou o quê? Você não entendeu qual parte sobre fugir? – ela me fitou com os olhos ameaçadores de sempre.
            Ela pegou o celular, abriu o compartimento atrás onde fica bateria, retirou o chip, me entregou o aparelho, abriu a janela do Ford Fusion que estava emperrada por sinal e mesmo com metade do vidro aberto, atirou o chip no rio Tietê. Praticamente, um crime ambiental, se aquele rio não fosse tão poluído que um cisco a mais não alteraria aquele esgoto a céu aberto.
            -Pronto, resolvi! – ela disse limpando as mãos como se as tivesse sujado, atirando o chip pela janela.
            Apenas dei o meu sorriso quando não tenho palavras a dizer e cujo significado era “se é assim, assim está bem”. Rafa ligou o rádio que começou a tocar a música do Barão Vermelho, “Puro Êxtase”. Soraya começou a dançar alucinadamente que o banco traseiro estava pequeno para nós dois, minha cabeça foi parar no vidro.
            -Ela está suada e pronta para se derreter!Ela é puro êxtase!- ela repetia o refrão da música sem parar. – Se o galo cantou é que tá na hora de chegar, de tão alucinada já ta rindo á toa, quando olha para os lados a todos atordoa! A sua roupa montada parece divertir os olhos gulosos de quem quer me despir! Ela é puro êxtase!- faltava uma garrafa de champanhe nas mãos para completar a alucinação da minha amada. - Sou eu, essa música é minha!Como se fosse o Wend, cantando para mim!
            Uma coisa ela tinha em comum com a música, os olhos gulosos. Fiquei a admirando por mais que negasse, ela era ordinária e perfeita, uma mistura maravilhosa que formava a minha vampira, a mais deslumbrante de todos. Eu disse minha? Até quando seria minha?

Parte 16 – No Avião


Parte 16 – No Avião
       “E mais uma vez seu feitiço havia dado certo pelo menos o início, já que eu não esperava sossego nos próximos tempos.”
            Chegamos ao aeroporto e logo o nosso vôo foi anunciado. Fizemos o check-in e aguardamos. Logo, já estávamos sentados em duas poltronas confortáveis e vermelhas e o melhor sem a terceira pessoa ao lado. Sentei próximo da janela porque adorava visualizar a pista de decolagem ser substituída pelas nuvens e aos poucos tudo parecer tão pequeno. Mas, estava escuro demais para qualquer visualização, somente as luzes pareciam vaga-lumes no chão.
            Soraya abria o seu livro e ligava a luz de leitura, estava lendo Amanhecer de Stephenie Meyer, o último da saga Crepúsculo, ao que me parecia adequado para uma recém-vampira. Ficamos em silêncio durante a maior parte do percurso, enquanto ela lia, eu tentava dormir, o que era impossível já que os meus pensamentos estavam voltados no momento em que a família Priesly encontrasse o bilhete, se é que haveria um bilhete e que o conteúdo fosse aquele que Soraya havia me contado.
            Peguei uma revista disponível no banco e comecei a folheá-la, haviam entrevistas com personagens da Fórmula 1 , achei muito entediante e eu sempre acreditei que nessas corridas haviam trapaças e muito jogo sujo.Resolvi ler os classificados no verso da entrevista era algo como um “correio sentimental”, pessoas expondo suas características,gostos e endereços em busca de uma “alma gêmea”.
            -Não acredito que com tanta tecnologia isso ainda existe! – eu disse, amassando a revista.
            -Ai, você me assustou, seu estrupício! O que te chateou na revista? Deixe-me ver, está com raiva do Bruno Senna? Ele não tem talento como o tio dele, mas... - ela disse deslizando os dedos pelas páginas da revista.
            -Não é isso! É isso! – eu disse abrindo na página onde estava o correio sentimental.
            -Parece que esse povo está atrasado, pelo menos eles têm e-mails! Mas, o que tem nisso de tão ruim, Wend?- ela perguntou olhando para a minha cara com espanto.
            -Nada em especial, só me fez lembrar de quando eu te conheci!-respondi.
            -Que eu saiba não nos encontramos em um site de relacionamento, de namoro, foi o acaso do jogo, acho que você está perturbado! – ela disse colocando a mão gélida na minha testa quente.
            -Ai, eu não estou perturbado! Só me arrependi de ter vindo com você, uma zumbi, não sei! Um cadáver que fala, anda e... Eu sou um panaca! – eu disse abaixando a cabeça.
            -Você não é um panaca, talvez tenha uns 5% de panaca, mas a revista não tem culpa das suas loucuras e surtos, e outra, essa loucura valerá a pena, você está com quem realmente ama!
            -Correndo risco de vida, tem mais algum ponto positivo de agüentar uma “mortinha” me mandar o que e não fazer?-perguntei com raiva.
            -Grita para todo mundo no avião ouvir que eu sou uma vampira, quer um megafone?Achei que você gostasse tanto de Pushing Daisies e amores impossíveis que decidi fazer essa surpresinha para você, eu sou a sua Chuck, meu bem!
            -A Chuck não é tão ruim quanto você, e eu precisaria de um labrador marrom e ter uma “toca da torta”!
            -E quem te disse que você é o meu confeiteiro? Você é mais do que um ressucitador, mas se quiser me ressucitar...
            -Devo ligar para a polícia, para a funerária ou o quê?
            -Me beije!-ela me pediu, com os olhos cintilantes.
            -Ok, te beijar e ter uma hipotermia, ter um ataque no avião e cairmos na ilha de Lost! Onde você confundirá os nossos caminhos e comerá todos da ilha!
             -Ás vezes, eu acho que a sua mentalidade é tão fértil, que você deveria começar a escrever uma história sobre a nossa relação desde o início até o meu estágio atual!Você vive reclamando, talvez o melhor fosse se eu tivesse deixado você em Curitiba com a minha irmã, daí o Cle...
            -Não continue! Você não ficará repetindo o nome desse “filho do esperto” enquanto eu estiver vivo e por perto! – eu disse.
            -Quanta rima, que tal virar um trovador?Eu tenho uma musiquinha! “Hoje as pessoas vão morrer, hoje as pessoas vão matar, espírito fatal e a psicose da morte estão no ar, o mundo poderia acabar, já agora neste momento, por que só eu estou sabendo e eu já fiz tudo que já tinha pra fazer hoje”!
            -Uau! Bela música, ainda bem que a sua voz também não ficou monstruosa, como as demais partes!
            -Acho melhor você descansar e se conscientizar de que o elo que nos une está cada vez mais forte, e eu já não posso ficar sem você e vice-versa! Você é meu, e eu serei tua assim ninguém mais poderá nos separar nem a distância de um amor virtual nem o coração ferido de um vampiro malvado! Quantas vezes eu terei que demonstrar que eu... Eu...
            -Que você...?
            -Que eu estou te... Te protegendo de todo mal que ronda a sua vida!Sei que a culpa é minha, mas eu só quero ter você por perto!
            -Minha amada cadáver, ou seria a minha noiva cadáver? Tim Burton adoraria te conhecer! Você está falando tão bonito que eu achei que agora iria se declarar para mim!
            -Eu? Me declarar para um ser tão estúpido e chato como você? Imagina só, eu me derretendo por um humano orgulhoso que não assume que está feliz ao meu lado!
            -Você não se derrete porque é mais gelada do que um iceberg, mas agora com o aquecimento global pode ser que o seu gelo derreta!Eu não vou mais discutir, porque detesto barracos em lugares públicos!
            Como ela podia ser tão dissimulada e orgulhosa em dizer aquilo depois de tudo? Como se eu estivesse ali por espontânea vontade ao invés do perigo! QUEM disse que ela era o melhor para mim e que este era o melhor caminho? Poderia eu retornar e colocar um ponto final nesta história de ser o companheiro das aventuras e desventuras de uma recém-vampira?
           

Parte 15- Seqüestro



Parte 15- Seqüestro
 “A minha megera indomada me levava numa direção absurda, eu corria risco de vida, mas isso era tão importante?”
            Soraya abriu pausadamente a porta da sala para que eu pudesse levar as seis malas, uma quantidade exagerada com o guarda-roupa todo dela. Assim que o portão abriu, Sabry saltou do carro preto dando sorrisinhos de alegria.
            -Vocês sabem que sempre foram o meu trauma favorito no jogo! –disse ela unindo as mãos.
            -Obrigado, mas você pode abrir o porta-malas, por favor? –perguntei enquanto me equilibrava com as malas.
            -Só um minuto Wend!Deixe-me terminar de falar, não sabem o quanto eu estou emocionada com isso, vocês são tão perfeitos! –disse a garota apertando a minha bochecha.
            -Sabry, será que dá para abrir esse negócio logo?Ou está esperando que o Wend derrube todas essas malas e faça um barulho que desperte toda a minha vizinhança? – disse Soraya trocando a expressão de riso por raiva.
            -Ai que saco!No carro eu falarei mais!-ela disse com raiva enquanto o porta-malas espaçoso se abria.
            Após passos silenciosos e uma batida leve para que o portão trancasse, entramos no carro e Sabry saiu pilotando em alta velocidade como se estivesse na fórmula alguma coisa.
            -O que escreveu no bilhete? –perguntei á Soraya.
            -Eu escrevi “queridos, tive que tomar uma medida de emergência, levei o Wend comigo! Ale não me mate, ele nem te amava mesmo! Fiz o que será melhor para todos, quando a situação ficar mais estável prometo contar-lhes a verdade, beijos gelados da ETERNA Soso”!
            -Sua irmã desejará que eu morra e seus pais pensarão que isso é um seqüestro!Mas, não identifico ainda quem seqüestrou quem!- eu disse.
            -Um amor bandido vampírico, adoro filmes assim! –disse Sabry se remexendo em seu banco de couro rosa.
            -Não é filme, é vida real! – reclamou Soraya.       
            -Chegamos amores! – disse Sabry dando gritinhos entre as palavras de alegria. -Aqui estão as passagens e o Rafa disse que aguardará vocês no aeroporto de Cumbica, bem você tem o celular dele né, Soso?
            -Claro, muito obrigada, minha melhor amiga da vida virtual e real!Tudo está funcionando conforme o planejado! –disse Soso, abraçando a amiga entre os bancos do carro.
            -Você sabe que eu sou eficiente!Mas, antes de saírem eu quero tirar uma foto com vocês e outra de vocês! – disse Sabry, retirando da bolsa da pantera cor-de-rosa, uma câmera rosa para variar um pouco.
            Ela passou para o banco traseiro, nos abraçou e a máquina programada tirou um belo retrato apesar das nossas caras sonolentas.
            -Calma, agora eu quero uma de vocês se beijando! – ela pediu batendo a cabeça no teto do carro.
            -Isso não é possível!Não estamos juntos! – eu disse.
            -Oficialmente já estamos, basta você querer! – respondeu Soraya.
            Olhei para aqueles olhos verdes-escuros e, já que me envolvi em uma louca história e a minha relação com Alessandra havia saído pela porta, não hesitei. Sabry tirou uma foto que mais parecia com aquelas fotos de recém-casados.
            -Perfeita!Divirtam-se em São Paulo, meus amores! – falou Sabry em tom maternal, enquanto eu pegava nossas malas.
            -Se minha irmã aparecer na sua casa ou entrar em contato pelo Orkut ou algo do tipo, diga que não sabe de nada, e se o Cle aparecer... -recomendou Soraya.
            -Diga que a Soraya me seqüestrou para me matar, você não deve dar satisfações para aquele vampiro imbecil, o “filho do esperto”! – eu a interrompi.
            -Pode deixar, pretendo ir a São Paulo em breve! – disse Sabry.

domingo, 25 de julho de 2010

Parte 14 – A Fuga


            Parte 14 – A Fuga

“E se eu contasse tudo? Poderia estragar a fuga, mas o que  faríamos com uma vampira á solta? O melhor a se fazer era...”
            -Sua irmã está com problemas, acho!Mas, não quis me contar!
            -Estranho, porque você está com cara de cúmplice!Me entende? – Ela disse tocando no meu rosto.
            -Cúmplice? Só se for de um resgate! – disse sorrindo, tentando mais uma vez dispersar o assunto abordado.
            -Tá bom!Agora me beije como se fosse a última vez!
            Será que ela descobriu que esta era a última vez?Podia ler a minha mente? Eu deixava tudo tão evidente?Não poderia dar sinais da minha fuga.
            -Como assim? – perguntei, franzindo a testa.
            -Nunca ouviu a música “Bésame mucho”?
            -Ah, claro que sim!- só depois desse alívio, a beijei.
            Quando voltamos para a residência dos Priesly já era tarde, e para a minha sorte e de Soraya, todos foram dormir “cedo” naquele dia. Após me despedir de Ale, me tranquei no quarto como se fosse mais uma noite de sono, até ouvir três leves batidas na porta.
            -Já vai, calma!- eu disse com raiva. –Você?
            -Quem achou que fosse? A bruxa de Blair? Ou a minha irmã, a rockeira louca? Já arrumou tudo?
            -Sim, dona vampira, dona do meu sangue!
            -Cala a boca Wend!Acho melhor você sair por aí gritando e revelando a minha condição secreta!
            -Se eu gritar você me morderá? –olhei sugestivamente.
            -Não te morderei, mas posso te matar que é mais eficiente!
            -Quer saber? Eu não fugir com você, se o “filho do esperto” quiser me matar eu denuncio para o centro de aberrações da natureza antes de qualquer coisa ou para o zoonoses!
            -Primeiro isso não existe e ninguém vai acreditar em você! No mínimo você será internado em um hospício ou uma clínica de recuperação mental!
            -E você irá comigo já que o seu pai pretende te internar lá também!
            -Você já arrumou as coisas?
            -Já, vampira louca! Mas, ainda não sei porque entrei nesta fria literalmente!
            -Porque você ama, ainda!
            -Infelizmente tenho que admitir algo que não é perigoso em dizer, já que vou ficar com a “imagem suja” com a sua irmã!
            -Eu deixarei um bilhete á eles!
            -Vai escrever o quê? Seqüestrei o seu namorado, se quiser pague a recompensa de...
            -Não! Mas, pedirei desculpas por mim e por você!
            -Que bom! Acho que a vampira má ainda tem um bom coração, mesmo que seja de papelão!
            -Se for para você me tratar com essa ironia e sarcasmo é melhor que eu mate você e fuja sozinha!
            -Vá em frente! Me mate de uma vez, tire a minha alma, me deixe desencarnado, mas eu duvido que conseguirá se esquecer de mim, eu sou inesquecível, o seu presente do natal!
            -Você é definitivamente o meu karma!
            -Sabe que eu posso lhe dizer o mesmo!Por que estou no Paraná? Ah, porque uma guria virou vampira e maltrata os familiares, e o que eu tenho a ver com isso?Ah, eu namorei virtualmente por um longo tempo, com essa louca recém-transformada!
            -E agora está com a minha irmã!
            -Coisa que aconteceria se eu não te conhecesse naquele RPG!
            -Meu celular está tocando!
            -Atende, pode ser algum dos Volturi dizendo que sua cabeça será cortada!
            -Não me diga o que fazer ou não!Alô! Você já está aqui? Vamos sair! Wend pegue suas malas e as minhas também, enquanto eu abro aquela porta barulhenta com delicadeza!
            -Você levará quatro malas?-eu perguntei, não acreditando no peso que segurava.

Parte 13- Perguntas


Parte 13- Perguntas
       “Já não dava mais para mentir e ela era a minha atriz favorita...”
            O dia estava normal como sempre, mas eu já não conseguia abraçar e beijar Alessandra com a mesma intensidade e carinho de antes. Havia uma “barreira” que me impedia.
            Ninguém notou a minha mudança comportamental, e Soraya também agia normalmente, me ignorando para não demonstrar que nossa relação havia mudado. Na sala, Ale me perguntou:
            -Hoje pela manhã, o que ela queria com você? Ficaram quase uma hora trancados, fiquei preocupada!
            Pensei na resposta mais rápida e que não demonstrasse que eu estava mentindo.
            -Ela achou que iria morrer de hipotermia, e então resolveu me pedir desculpas e esclarecemos a nossa relação mal resolvida do passado!-disse com um sorriso amarelo.
            -Estranho, se tudo está bem agora, por que ela te ignora?
            Eu sabia que Ale era tão esperta quanto a irmã mais velha, e que o melhor a se fazer era fugir já que não agüentaríamos tantas perguntas.
            -Você conhece sua irmã melhor do que eu!Sabe o quanto essa garota é orgulhosa, jamais dará o braço a torcer!
            -Isso é verdade, ela é uma peste mesmo!Mais uma vez não almoçou só para nos deixar com raiva!Mamãe não que dizer, mas ela acha que Soraya parece um daqueles mutantes da TV!
            -Mutante?Bobagem!Acho que ela é pior do que um mutante, sem dúvida!
            -Ás vezes acho que ela é um alienígena, afinal herdou os olhos claros do nosso pai, e ele também parece um E.T quando falar ao celular aquela linguagem de câmbio!
            -Ela pode comer escondido!
            -Tudo bem que ela queira comer fora e tal, mas, não precisa fazer desfeita da comida da mamãe que é tão gostosa!
            -Realmente, dona Miranda é uma chefe de cozinha e tanto!Mas, a cabeça da sua irmã não pode ser controlada!- disse para tentar mudar o assunto, antes que a minha “boca grande” revelasse algo.
            -Ainda bem que herdei isso dela!Você não passará fome, agora a Soraya só cozinha quando quer, e na maioria das vezes faz macarrão instantâneo e pipoca, quer dizer cozinhava porque agora parece uma pata choca!
            Assistimos a uns filmes durante a tarde inteira. Soraya permaneceu no quarto arrumando as malas, disse para nós que precisava relaxar após a sua crise de hipotermia. Miranda acreditava que tanto nervoso era a proximidade do resultado do vestibular.
            Após o jantar, Ale me convidou para dar uma volta no parque. Aceitei, pois seria o meu último encontro com ela, mas sabia que na madrugada a minha vida tomaria um rumo ainda mais diferente.
            Aproveitei aquela noite para conhecer o máximo de Curitiba, a Praça Osório e outros pontos. Na frente de uma fonte, Ale segurou as minhas mãos, olhou nos meus olhos e disse:
            -Você parece estranho desde que saiu do quarto dela, está acontecendo algo que te perturba e quer me contar?
            -Nada me perturba!-respondi com aspereza.
            -Acredite, apesar da virtualidade, eu te conheço muito bem e sei que algo no seu rosto te apavora!
            Arrumei os meus óculos e não respondi.
            -O que você quer me contar?-ela insistiu.
            -Te contar?
            -É sobre a Soraya? O que você sabe? –ela apertou com muita força os meus pulsos.

Parte 12- Planejamento


Parte 12- Planejamento
“Seu plano era perfeito assim como a vivacidade de seus olhos”
            -E o que vamos fazer?-perguntei.
            -Sabry me disse que já conversou com o Rafael e que ele pode nos abrigar lá em São Paulo!
            -Que ótimo!Vocês resolvem tão fácil quando querem!Mas, e a sua irmã e os seus pais?
            -Alessandra é nova, vai superar o fato de que eu fugi com o namorado dela, não que seja fácil em lidar com a situação, mas não pode interferir!Os meus pais também, segundo a legislação eu já sou adulta, falta pouco para os meus dezenove anos!
            -As coisas não são tão fáceis para os humanos quanto são para vocês, vampiros! – a última palavra soou com desdém, e eu dei uma risada sarcástica.
            -O fato é que eu preciso de você, preciso que fuja comigo!
            -Agora você precisa de mim, mas na hora de se encontrar com aquele imbecil do vampiro?Foi sozinha sem se importar com quer que fosse!Sinto muito!
            A música que tocava no rádio era “Insensatez” da Fernanda Takai.
            -Eu te peço por mim, pelos demais também!Eu sou um perigo para todos, será possível entender?
            -E para mim também representa perigo!Eu não quero deixar o meu pescoço na sua reta!
            -Por acaso em algum momento eu pedi o seu sangue? Por enquanto estou bem nutrida e não preciso dele!
            -Nutrida? Você comeu quantas pessoas?
            -Eu não como pessoas, idiota!Apenas animais, o sangue de um gato, por exemplo, é suficiente para três dias!E o sorvete do aeroporto...
            -Que nojo, quanta maldade!Ainda bem que você não tem animal de estimação!Eu sabia que aquele sorvete não era groselha, era tipo A ou tipo B? Positivo ou negativo?
            -Era AB!Um dia você entenderá a minha condição vil e medíocre!
            -Prefiro não entender!
            -Posso te beijar? –Ela me pediu com um brilho no olhar.
            -Depende se não quiser absorver as minhas artérias com um beijo!
            -Seu bobo! Vai continuar assim até quando?
            -Humano? Até a morte, e bobo até cansar!Você sabe muito bem que ás vezes eu me faço de bobo, para não deixar as situações piores do que já estão!
            Nos beijamos e eu já não  podia condenar as atitudes frias dela, estava no mesmo caminho e até pior, já que não dava mais para manter o relacionamento com Alessandra.Não podia mais enganá-la de tal forma.Eu era mal a partir do momento em que rompi um compromisso em busca da felicidade.Seria um cúmplice ou um apaixonado?
            Era feliz com Ale, mas faltava aquela “pitada de pimenta” que só Soraya tinha. O nosso estranho jeito de amar, o platonismo, as cartas, as conversas aos finais de semana e o elemento fundamental, o melodrama. Saí do quarto de Soso decidido a terminar de uma vez com Ale, mas sua irmã me impediu.
            -Você está louco?Ela vai sofrer o suficiente com a nossa fuga, deixe tudo como está e o tempo se encaminhará de fazê-la entender que tudo foi para o bem dela e de todos!
            -Está bem, se acha que assim é melhor!
            -Hoje, para ser mais exata nesta madrugada vamos fugir ok? Deixe suas malas prontas, assim que todos dormirem eu ligarei para a Sabry e ela nos levará até o aeroporto!
            -Você já comprou e esquematizou tudo?
            -Claro meu bem, ou acha que daria tempo de você impedir e estragar tudo?Você virá comigo e juntos resolveremos tudo!Lembre-se que tu corres perigo tanto como eu!    

Parte 11 – Confissões


Parte 11 – Confissões
“Ela me falou tudo o que eu queria ouvir, mas eu não esperava que me envolvesse em uma louca história”.

   -Quer me dizer que ainda me ama? –perguntei já sabendo qual era a resposta.

            -Não é isso... Quer dizer não é só isso... Pelo visto você soube que eu estive com o Cle nesses tempos atrás!-ela me disse gaguejando.

            -Por favor, não me diga que o tal do Cleverson te engravidou!Aquele “filho do esperto”... O que tem a ver?-perguntei.

            -Ele me mentiu... No início disse que me amava...

            -Está fazendo tradução da música da Anahí?Isso não é válido!-enquanto eu falava, ela ligou o rádio e obviamente naquele cd era dos Cranberries e a música era “Will you Remember”.

            -Não!Sinta a minha pele, está congelada!-ela pegou as minhas mãos e colocou-as em seu rosto. Foi a impressão de estar tomando um choque. Sua pele era macia e aveludada, porém, parecia um freezer.

            -E qual é a relação da sua pele com o tal “filho do esperto”? –perguntei.

            -Quando eu o encontrei na praça naquela noite, ele parecia estranho, usava um sobretudo preto, aquela aera uma noite abafada e eu não entendi!

            -Pare de me enrolar, e me diga de uma vez a verdade que está me escondendo! –eu disse com raiva de tanta embromação.  

            -Eu sou... Eu estou... Sou uma vampira! –me confessou.

            Supostamente seria uma piada para qualquer um que ouvisse isso logo pela manhã. Na cama com uma vampira? Que coisa mais cinematográfica, vampiros brasileiros, a nova sensação do verão de quarenta graus.

            -Sei que essa onda de vampiros voltou com esse lance de “Crepúsculo”, mas chega a ser inacreditável, me desculpe! –Eu respondi em deboche.

            -Ele demorou muito tempo para marcar o nosso encontro... Porque ele não queria me ver...

            -Eu sempre soube que ele era um fraco, ou melhor, que se quer existia... Mas, ser um vampiro é demais para a minha imaginação fértil!

            -Lembra a história da garotinha Raquel que foi encontrada em uma mala na rodoviária aqui em Curitiba em 2008?

            -Claro, aquela história que está sem solução até hoje!Nós conversamos uma vez sobre isso até que eu mandei você se cuidar!-eu disse.

            -Foi ele quem a matou!

            -Meu Deus!Quem inventou os vampiros, certamente não foi Deus!Como funciona esse negócio de ser vampiro? –perguntei curioso.

            -No dia do nosso encontro, ele me modificou com uma mordida, fiquei em péssimo estado, tanto que apareci aqui em casa uma semana após aprender tudo. Aos poucos eu fui me transformando nesse monstro, primeiro veio a agressividade, depois a agilidade e agora parece que cheguei ao estágio final onde tudo fica evidente e translúcido pelos meus olhos e minha pele!

            Assustei-me com o que ela disse, e até me esquivei um pouco. Eu não tinha nenhum dente de alho, ou estaca de madeira, pelo menos não teria que usar uma bala de prata, já que ela não era uma “lobimulher”, se isso existisse.

            -Estou perdendo o controle das minhas ações, me aproximar de qualquer um é um tormento, por isso me tranco no quarto para estudar, o cheiro de sangue correndo nas veias de todos que me cercam, o calor da pele... Quase que eu te mordi ontem na festa!

            -E onde o pilantra do Cleverson está?Você sabe como ele se transformou em um?

            -Antes de entrar no RPG, ele investigou toda a minha vida, eu seria apenas mais uma vítima que ele conhecera pela internet!Mas, ele se apaixonou por mim e tivemos aquele namoro que apesar de sermos da mesma cidade nunca passou do campo virtual!Então, ele decidiu que ao invés de me matar, eu era merecedora de uma transformação!Eu não sei onde ele está!

            -E onde eu entro nessa sua história sobrenatural?

            -Ele está decidido a te matar, já descobriu que você está aqui em Curitiba... eu li no Twitter dele!

            -HAHA...Vampiros que “twittam”...viva a modernidade!-dei uma risada forçada, mas estava com um pouco de medo.Seria tudo verdade, ou não passava de uma “pegadinha”?


Conversación


GIRLSPT.COM - Cursores Animados
g
Wendryck Wonka,webnovelista & designer. Tecnologia do Blogger.